não-numérico; não-verbal

Há muitas formas de se fazer investigação científica. 

Nas ciências exatas, trabalha-se mais com números, quantidades, estatísticas .
Nas ciências sociais, trabalha-se mais com palavras, qualidades, significados.
Estou a hiper-simplificar: em todas as áreas pode fazer-se todo o tipo de investigação - e misturar vários tipos de métodos e não há formas melhores que outras. Tudo depende de onde se quer chegar.

O que gostaria mesmo de transmitir aqui é que, por vezes, nem números, nem palavras nos dão os dados que precisamos. Ou, se quisermos ver por outro prisma, ao utilizar dados não numéricos e não verbais, poderemos descobrir pistas de investigação a que não teríamos acesso olhando apenas para números ou palavras.

Que tipo de dados são esses?
Podem ser imagens, movimentos / gestos, desenhos, esculturas e outras produções tridimensionais.

Mas antes gostaria de dar um pequeno passo atrás, para apontar a diferença entre RECOLHER e GERAR dados.

Uma recolha de dados é uma espécie de levantamento de informação que já existe; que já está disponível, mesmo que não organizada. É o que se faz, por exemplo, quando se vai a um arquivo, quando se consulta estudos já efetuados, ou quando se usa estatísticas existentes para cruzamento e estudo de dados.

A geração de dados implica a criação ou produção de dados que ainda não existem, para responder a outro tipo de questões de investigação, mais exploratórias e para entendimento de um determinado contexto. Aqui, a pessoa que investiga está diretamente envolvida na produção desses dados.

As formas mais usuais de gerar dados são através de entrevistas e focus groups (uma espécie de conversa em grupo). São feitas questões, que resultam em respostas ou discussões. Esse material, sobretudo oral (expresso em palavras), é então transcrito e analisado posteriormente, já em forma de texto. Ou seja, o que se analisa é as palavras que foram ditas. Mas também é possível recolher dados através de observações e notas tiradas pelo próprio investigador: por exemplo, observação de movimentos de pessoas nas ruas, notas sobre um evento em que se participou. Aqui, já nos aparecem elementos que podem não ser verbais: desenhos, esboços mais visuais, mapas

Mas podemos ir um pouco mais além, afastando-nos ainda mais da palavra: em vez de entrevistas, podemos pedir para os participantes fazerem um desenho; escolherem uma imagem com que mais se identifiquem; ou tirarem uma fotografia do seu dia-a-dia; podemos sugerir fazer-se uma escultura, ou pedir um gesto que faça lembrar algo conectado com o que queremos descobrir.

Muitas vezes, este tipo de processo de geração de dados desbloqueia temas e faz emergir situações que, de forma exclusivamente verbal, não teriam surgido. Assim, podem servir de visualizadores de realidades menos conhecidas, para que sejam posteriormente abordadas com mais detalhe na investigação. Mesmo o processo de criação destes elementos, confronta a pessoa que está a criar de uma forma diferente, acedendo a lugares interiores que, usualmente, não estão acessíveis no modo pergunta-resposta. Também, o tempo e a calma necessárias para expressar de outra forma, têm a capacidade de provocar uma sequência de reflexão diferente da que se consegue numa conversa em direto.

Outro aspeto importante de incluir outros modos de expressão na geração de dados é que pode tornar a investigação mais inclusiva para quem é menos ouvida ou está mais confortável com modos de expressão não-orais ou não-verbais e, ao mesmo tempo, tirar da zona de conforto quem está mais à vontade com formas verbais, não só invertendo as atenções num grupo, como também dando a oportunidade para uma partilha mais justa entre pessoas diversas e para a construção coletiva de empatia.

Ainda mais inclusivo poderá ser dar aos participantes a oportunidade de responderem a uma questão ou exercício da forma que lhes for mais confortável. Há quem prefira expressar-se oralmente; outras pessoas, preferem por escrito; outras, em forma de desenho ou escultura; filme, dança.

Nesta investigação, já foram feitas entrevistas e provocadas conversas de grupo (que podemos equivaler a focus groups) a partir de material criado anteriormente pelas pessoas desse grupo. Este material era tanto verbal (identificação coletiva de sensações, sujeitos, lugares), como visual, através da criação de uma narrativa-colagem individual, que foi posteriormente apresentada e comentada em grupo.

Nas próximas fases do projeto, vamos experimentar outras formas não-verbais de gerar material e de provocar discussões, entrando mais da tridimensionalidade, tanto do resultado em si do material criado, como na dimensão mais espacial do próprio modo de fazer. Vamos introduzir movimento do corpo e a experiência do espaço público. Vamos também gerar resultados de forma mais coletiva, ou seja, trabalhar coletivamente na mesma peça, objeto, ação. Por exemplo, se na fase anterior eram geradas histórias-colagem por cada participante e, depois, partilhava-se em conjunto os resultados; agora, uma proposta equivalente seria produzir em grupo uma colagem e discuti-la posteriormente (verbalmente ou não), também em grupo.

Fazer coisas com as mãos, mover o corpo, usar as mãos e o corpo para pensar… todos estes exercícios pretendem contribuir para diversificarmos o nosso sentir e o nosso pensar sobre aquilo que nos rodeia.

É nesta diversidade que aprendemos e geramos novo conhecimento. E que nos abrimos para o desconhecido; para o outro; para o que poderá vir a ser.

Se fazer isto é, também, fazer investigação, é bónus.


[esta partilha foi feita sem recorrer a uma imagem. só texto. que seca! :D]